Os juncos balançavam suavemente como os cabelos leves de uma dançarina do vento este. A suavidade com que movimentavam de um lado para o outro dava à paisagem um ar esplendidamente imaculado. O verde com tons doirados da erva dançante e o pessegueiro em flor tão velho quanto o tempo, centenário de tronco grosso e quase ébano, emergia de um céu em tons doirados, rosa e púrpura como o quimono de uma maiko.
A casinha nascia de um rochedo em tons cinza com rastos verdes de musgo. a casa tinha um telhado escuro com quatro pontas bicudas onde nos dois bicos da fronte da casa pendiam candeeiros de papel vermelhos com letras doiradas em kanji, num dizia Harmonia, noutro dizia paz.
A casa era de madeira escura já velha. Tinha portas de correr de papel e estava a uns cinco centímetros do chão suportada por estacas de madeira que suportavam a construção. Toda em volta da casa havia uma varanda una onde estavam alguns objectos doa dia-a-dia.
Desde uma mesinha de chá rodeada de quatro almofadas, todas vermelhas, nesta mesa estava suportadas quatro chávenas de chá num tom barrento e no meio estava o Bule igualmente de barro.
Noutra zona da varanda, perto da porta de entrada, estava um vaso com uns bambus lá dentro. Suportando os extremos do telhado, havia altas estacas de madeira, nelas estavam envolvidas belas glicinias roxas que caiam como as lágrimas de uma princesa nas estacas e no telhado.
A casa tinha à sua frente os juncos e o campo aberto com o pessegueiro no meio. No lado esquerdo tinha um belo jardim com pinheiros do oriente e algumas árvores de camélias. No centro do jardim havia um lagozinho com peixinhos doirados que nadavam por baixo dos três ou quatro nenúfares verdes do tamanho de uma mão aberta com uma Lotus poisada no cimo em tons rosa água com duas folhas ainda mais verdes que os nenúfares.
Do lado esquerdo da casa, a muralha de rochedos continuava. O maior tinha mais dois metros que a casa e nesse poisava todos os dias garças brancas que lá se enamoravam e descansavam. À frente da casa, um belo horizonte pintava-se aos olhos dos mortais. Um nascer do sol que só podia ser visto do topo do mais alto monte da mais alta montanha.
O lugar da casinha era uma plataforma no cimo do monte. Essa dava ligação por escadinhas de pedra até às outras plataformas onde estavam os arrozais de tons de platina e esmeralda brilhando com o sol.
As nuvens pareciam uma cama de seda branca tecida pelos deuses. Deixavam apenas à mostra o topo verde e rugoso das outras montanhas da cordilheira, as irmãs da montanha do pessegueiro. Delas desciam fios luminosos de cascatas de prata, e em cada plataforma dessas montanhas via-se o verde da relva junto com os pinheiros onde poisavam Grous e garças. Em algumas plataformas mais largas via-se construções do homem, desde um templo budista feito de pedra branca com um sino onde de hora a hora o monge batia criando um som que parecia ser o bater de coração do mundo, um suspiro profundo do coração de rubi dos deuses. Esse bater ouvia-se em todas as montanhas, este acordava, avisava, aclamava e adormecia os poucos seres humanos da cordilheira do Sol nascente. Noutra montanha via-se uma plataforma onde estava um pequeno local de paragem e reza onde estava uma imagem de uma deusa protectora, provavelmente Amateratsu. Essa plataforma ia ligar a outra da montanha mais próxima por uma estreita e longa ponte de madeira rija, feita pelos antigos monges.
Na montanha mais baixa mas mais larga, avistava-se uma aldeia em movimento. As cores da rotina diária. os quimonos cheios de floreados das senhoras de mão dada com os filhos. Os homens em conversação com os seus kinagashis negros, cinza, verdes e azuis enquanto bebiam sake, A tecelagem das sedas pelas mulheres. O afiar de uma catana japonesa. Duas catanas de pau a encontrarem-se uma a outra numa luta entre mestre e aprendiz. Dois futuros noivos a deliciarem-se com cerejeiras debaixo da cerejeira em flor de um jardim de uma das trinta e cinco casas da aldeia. E por fim os arrozais em diferentes plataformas com escadas tanto de pedra como de madeira a ligar à aldeia.
E a casa da montanha do pessegueiro mostrava-se a mais alta e a mais só. Lá vivia um samurai de meia-idade com um aspecto robusto e belo. Tinha um olhar de lobo da matilha. sábio e altivo em tons de negro e cinza. Os olhos eram tão profundos que até o monge mais equilibrado se perderia ao ser fitado por eles. O cabelo era longo até ao meio da coluna. Esvoaçava solene com o vento, negro como a lua-nova e sedosos deambulando no transparente ar morno da montanha.
Tinha no rosto uma vivida vida, uma lenda e provavelmente o esquecimento. quantas batalhas tinha travado e quão errante tinha sido o seu caminho de samurai. depois de vir para a montanha, Tsuki tinha deixado guardado as duas lâminas do seu orgulho. Esquecera-se dessa vida de sangue e guerra. Estavam guardadas nos confins de uma gaveta do armário de ébano, e lá iam ficar se esse fosse o desejo do ex-guerreiro. Os seus ombros eram imponentes e bem desenhados pelo kinagashi negro. O peito era um relevo no meio do amplo e forte tronco. as costas eram uma curva elegante de quem tinha sido um apaixonado antes. as mãos tinham as veias presentes e à vista. Os dedos eram finos e compridos, e a palma da mão eram larga e quadrada, mãos de quem tinha aprendido muito com a vida. Todo o seu corpo provava conhecimento e poder, no entanto, também demonstrava o cansaço da vida. Nas veias das mãos, nas pequenas rugas do sorriso triste, nos olhos inteligentes, na testa pensadora, no pescoço magro e esbelto, e mais secretamente, nas cicatrizes corporais, filhas de vinganças ou de esperanças. Cicatrizes de tristeza, cicatrizes de amor, algumas de protecção, outras de injustiça. Algumas cicatrizes eram de irmãos, outras de amadas. Cada uma delas contava uma história, e cada uma delas tinha um peso em Tsuki.
O peso que cada guerreiro carrega é o das almas das suas vitimas, nisso acreditam os japoneses. E tsuki confiava plenamente nessa teoria. As almas não eram troféu e muito menos motivo para se ganhar dinheiro. Em tempos remotos da vida deste samurai, as vidas valiam pouco, apenas uns quantos dinheiros dados por um senhor para matar o filho de um oponente.
Quão sujas estavam essas mãos? Quão sedente era a vontade de perdão?
Fora do contexto da nossa história, e mergulhando nas consciências de cada um, será mais fácil perdoar o próximo, ou nó próprios? Tsuki sabia plenamente a resposta a essa pergunta, era por isso que se tinha isolado, era por isso que se mantinha uno consigo, longe do afecto de qualquer humano, longe de sentimentos terrenos e de desejos mais terrenos ainda. Tsuki queria encontrar a paz. e quem o condenava? Um guerreiro tão sanguinário como ele tinha sido, tanto sangue que aguavam as sua mãos nos seus pesadelos de cada noite. Oh! Os pesadelos, esses que amaldiçoam os culpados, e que deles se aproveitam quando estes procuram a paz interior e o perdão das suas vitimas. Tsuki conhecia bem o mundo negro dos pesadelos. Muitas vezes tinha pesadelos e sentia-se acordar, no entanto quando dava por si, apenas tinha cordado para um novo, e assim sucessivamente ate´acordar lavado em suor e em lágrimas salgadas do seu pecado.Sentia-se amaldiçoado, daí querer procurar a paz e harmonia com tanta vontade.
Desde que tinha encontrado aquele lugar e erguido ali o seu templo de harmonia, cortado madeira, semeado, regado, caçado, só ai Tsuki sentiu o que era a harmonia de uma vida simplesmente feliz, sem sentimentos extremos e sem vontades traiçoeiras. Tsuki sentia-se bem consigo mesmo ao abandonar a sua vida de guerreiro rico e viver sem riqueza e ostentação no topo da montanha do pessegueiro.
Gostava inspirar o nascer de um novo dia, de trabalhar no cuidado da casa e do jardim, de pintar os seus maravilhosos quadros da paisagem, e escrever os seus poemas sobre a natureza e harmonia.
Este ambiente, e a sua dieta de aves e legumes que ele plantava, tinham-lhe dado uma saúde como nunca antes. O seu corpo mantinha-se forte no entanto agora era mais são, e a mente mais sã.
De vez em quando fazia a difícil viagem de subir e descer vales até ao templo do monges, onde orava por algumas horas com autorização dos monges que achavam o seu acto um acto de nobreza, outra vezes guiava-se numa viagem mais longa e ia até à aldeia das cerejeiras onde em troca de favores às pessoas da aldeia elas davam-lhe ou mantos de seda para o tufon, carne seca ou então cerejas que o ex-guerreiro adorava.
Tsuki passava horas a pensar no porquê da vida e como alcançar a paz, enquanto desenhava belas garças no topo dos pinheiros que estavam no cimo das outras montanhas. Pintava as cerejeiras e os pessegueiros com aquelas flores miudinhas e cor-de-rosa, outra vezes desenhava apenas as ervas com as borboletas a voarem de bobina em bobina. Tinha um traço cheio de leveza e graça. Nele demonstrava tamanha subtileza e pensamento luminoso, tal clareza, que os monges quando o visitavam de tempos em tempos e viam os harmoniosos quadros, diziam ser inspiração de Buda, apenas feito por mãos celestiais.
Tsuki não se considerava nada celestial, nem divino. Apenas acreditava que cada simples coisa da vida deve ser aproveitada, e que são essas simples coisas que provam que estamos vivos, como o olhar do horizonte, o deslizar de um pincel em seda, e tanto mais.
Enquanto procurava a paz nas suas obras, Tsuki ignorava o quanto as pessoas do templo e da cidade o admiravam. Ele olhava-se como sendo apenas um simples homem, mais um que se tentava redimir dos falhanços da vida de mercenário.
Mas Tsuki não era mais um. Ele era um homem de uma nobreza inimaginável, era doce e afectuoso. Metia quanta profundidade e poder em cada palavra que dizia. Poucas vezes falava, mas quando o fazia nunca era em vão.Parecia estar sempre a ponderar e punha tanto espírito nas suas obras que via reflectida nelas a sua remedição.
Assim era a vida modesta e espiritual do samurai da montanha do pessegueiro, assim ele passava os dias ponderando e aprendendo com as pessoas da aldeia, com os monges, as coisas simples da vida. E assim Tsuki ia criando o seu pequeno mundo de harmonia e paz, sem deslizes ou algo que o distancia-se do seu objectivo.
Tsuki não se considerava nada celestial, nem divino. Apenas acreditava que cada simples coisa da vida deve ser aproveitada, e que são essas simples coisas que provam que estamos vivos, como o olhar do horizonte, o deslizar de um pincel em seda, e tanto mais.
Enquanto procurava a paz nas suas obras, Tsuki ignorava o quanto as pessoas do templo e da cidade o admiravam. Ele olhava-se como sendo apenas um simples homem, mais um que se tentava redimir dos falhanços da vida de mercenário.
Mas Tsuki não era mais um. Ele era um homem de uma nobreza inimaginável, era doce e afectuoso. Metia quanta profundidade e poder em cada palavra que dizia. Poucas vezes falava, mas quando o fazia nunca era em vão.Parecia estar sempre a ponderar e punha tanto espírito nas suas obras que via reflectida nelas a sua remedição.
Assim era a vida modesta e espiritual do samurai da montanha do pessegueiro, assim ele passava os dias ponderando e aprendendo com as pessoas da aldeia, com os monges, as coisas simples da vida. E assim Tsuki ia criando o seu pequeno mundo de harmonia e paz, sem deslizes ou algo que o distancia-se do seu objectivo.
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