A noite caiu enfeitiçada pelo luar da lua cheia. Tsuki tinha acabo de vir da aldeia e trazia com ele o típico manto de seda e a comida que os camponeses sorrindo lhe davam. Subia com algum esforço as íngremes escadas de pedra maio húmida, principalmente em cima das sandálias de madeira com dois suportes como sola. Trazia os sacos às costas, muitos monges lhe tinham perguntado se queria ajuda, mas Tsuki sorriu e respondeu que não seria necessário uma vez que já estava habituado à subida e descida das montanhas com o seu material de desenho para encontrar bons pontos para pincelar nas suas pálidas telas.
Mas hoje era diferente, Tsuki trazia mais duas pedras negras que tinha pedido a um monge para colocar no seu jardim onde iria colocar um belo Buda que tinha esculpido.
O peso quebrava-o, sem piedade deitava-o mais para baixo. Ele sentia as costas estalarem de velhice, e as cicatrizes feitas pelas espadas de outrem já se queixavam de dores.
Sem aguentar o peso do corpo, Tsuki sentou-se num doas degraus, sentia o suor escorrer e as mãos tremerem de cansaço. Tirou o chapéu largo e deitou a cabeça para trás. Fechou os olhos por momentos. Sentia a brisa suave da quente temperatura. O calor de um Maio quente já entrava solene pelas vestes leves e largas do ex-guerreiro. Conseguia ouvir o silêncio das noites mornas. Abriu os olhos devagar e viu o céu negro com pequenas partes azuis escuras, como uma tela, salpicada por pontos cintilantes que brilhavam mais que os olhos e o sorriso de qualquer Deus. E finalmente, maravilhosa, linda, majestosa, pálida, a bela lua! Mãe de Tsukiyomi, senhora dos belos espíritos noctívagos, Deusa dos príncipes lunares. Tsuki conseguiu vislumbrar na lua os desenhos do lendário coelho lunar, o espírito da lua. Voltou-se finalmente a levantar, e seguindo a sua força de vontade, ergueu-se e seguiu viagem pelas escadas.
Só parou quanto chegou perto do belo pessegueiro em flor que em noites de lua cheia, parecia de pétalas de cristal.
Sorriu e deixou as coisas caírem subtilmente no chão. Acalmou-se o coração quando ouviu o suar das águas das cascata em miniatura que tinha feito numa rocha, pequenina e cintilante à luz do luar. Finalmente os seus olhos rolaram para a pequena cascata, queria vê-la mais uma vez, queria apreciar o seu trabalho. Quando olhou, os seus olhos abriram-se tanto que se podia ver a escuridão da pupila.
Em frente à sua casa estava um ser, este movia-se docilmente e com tanta fluidez e suavidade que os seus véus de parta pareciam lençóis de água. Inclinava-se para a cascatazinha, esticando a mão pálida como a lua com os dedos finos, até à água transparente e cristalina. Tinha cabelos que ondulavam numa água inexistente, tão lisos quanto negros.. Vestia um kinagashi branco que rolava levemente pelo chão. Os olhos cintilavam prateados, e o sorriso era puro e imaculado.
Tsuki agarrou-se às próprias vestes e ficou silencioso a vislumbrar tal ser tão belo. O ar fugiu-lhe quase totalmente, as mãos gelaram. Todo o corpo se contraiu. Era como se o corpo tivesse ficado petrificado por tanta beleza. O ser levou os pálidos lábios à água. O seu sorriso era tão doce e meigo que arrepiava o mais forte homem. Parecia uma corça.
Tsuki acalmou o palpitante coração e caminhou por entre a vegetação tentando aproximar-se da incrível criatura que se movia como uma bela garça branca. Devagarinho a rastejar por entre urzes e canas de bambu, Tsuki encontrou-se muito perto. Então conseguiu analisar melhor o visitante celestial. Era um homem. O rosto por muito que nos olhos se visse retoques de pintura em tons lilás, e que os lábios fossem como um botão de rosa, o corpo firme e direito cheio de elegância, apontavam para a sua masculinidade.
Então o ex-guerreiro manteve-se no mesmo sitio.
O belo jovem de cabelos longuíssimos negros, sentou-se no chão e com um gesto, puxou um fio de água e este como um jacto de luz, transformou-se num shamisen de madeira negra com cordas feitas de água que reluziam como o luar de prata. O jovem agarrou no bashi pálido e começou a dedilhar as cordas com breves pausas e suaves deslizes nas três cordas do instrumento. A zona larga do instrumento tinha o desenho de uma lua negra entre duas nuvens em tom argênteo. Tocava com tanta subtileza e calma que a água, o vento e toda a natureza se tinham calado para ouvir a sonoridade divinal.
Aproximando-se mais e mais, Tsuki já quase sentia o aroma de amoreiras do jovem pálido. Nesse exacto momento, a mão do homem tocou um galho que chiou ao partir-se. O ser olhou para trás e saltou de susto erguendo-se nos ares pronto para se retirar flutuando nos seus véus esvoaçantes.O ex-guerreiro avançou e soltou um grito afirmando não querer fazer mal a tal ser.
O jovem parou e virou-se com a mesma suavidade de sempre. Com o olhar carregado de seriedade perguntou se Tsuki era quem tratava daquele belo lugar. Ao que Tsuki respondeu positivamente.O ser esboçou um doce sorriso e descendo ao nível de Tsuki declarou ser um Katsura Otoko, um espírito da lua. Tsuki já tinha ouvido falar destes seres, belos e puros por natureza, príncipes da noite, verdadeiros mistérios da noite, varões filhos da lua.
Depois de ambos terem bebido chá de jasmim na varanda da casa, finalmente, quando a lua já ia alta, o belo jovem foi-se desvanecendo na escuridão em direcção ao céu. Tinha dito a Tsuki que às vezes de noite fazia uma paragem ali para levar os quantos pêssegos e que pensava que a casa estava abandonada. Também disse que se chamava Yuki, e que servia a Tsukiyomi no outro mundo.
Tsuki não falou quase nada apenas ouviu, não lhe ficava bem encher os ouvidos de um ser tão maravilhoso e divino dos problemas dos mortais.
Aquela noite tinha sido a primeira de muitas mais. E os mistérios do outro mundo estavam só agora a começar, as visitas dos filhos do outro mundo mal tinham começado. Tsuki pedia agora muitas vezes aos monges para mandarem vir livros da capital sobre deuses e espiritos. Agora o ex-samurai usava os tempos livres para ler sobre estes seres, aprender os seus poderes e as suas fraquezas. Queria saber mais, conhecer para poder compreender. Os seus desenhos agira baseavam-se em seres e criaturas de lendas e da mitologia. O homem sentia-se crescer, e cada noite se tornava mais radiante e misteriosa.
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