O sol nascente em rubro...

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O príncipe diamante - Barco voador

A noite desenhava-se num profundamente azul. Tsuki não tinha descido nem à vila nem ao templo. Tinha decidido ficar durante todo esse dia a trabalhar no monte do pessegueiro. Tinha arranjado uma nova actividade. Agora, guardados em inúmeras caixinhas, estavam bichinhos da seda. passava horas a fio a limpar e a cuidar daqueles animais pretos e brancos com a pele macia e de aspecto vulgar.Os pequenos e frágeis seres moviam-se lenta e suavemente. Roíam com calma e passividade as folhas verdes das amoreiras do jardim.  
As última noite tinha o deixado com uma nostalgia interior magnifica. então quando não cuidava dos seus produtores de seda, pintava a lembrança do Katsura Otoko, ou escrevia lindos poemas a ele. 
Meses passaram e já ia em princípios de Agosto. Tsuki já tinha seda suficiente para fazer um quimono, faltava-lhe tintas para tingir e material de costura. Nunca mais houve nenhuma surpresa noctívaga. Nunca mais Yuki lá tinha aparecido, e Tsuki sentia-se agora mais que nunca, só. Nunca antes ele tinha sentido isso, a necessidade de falar, de o ouvir, de sentir o seu doce hálito, o seu perfume das flores das árvores celestiais. Mas o que mais fazia Tsuki sentir falta era os olhos prateados feitos de estrelas. Aqueles que até a lua cedia aos seus encantos. Como o ex-guerreiro se sentia solitário. Nunca pensaria que um belo jovem filho lunar lhe faria tanto dano. Tentou esquecer, desenhar, escrever, mas sempre que tentava desenhar a lua, o seu rosto imaculado surgia dela, sempre que escrevia às águas e às árvores, era ele a quem dedicava.
Os meses tinham sido difíceis, Tsuki sentia que a sua paz já não fazia sentido sem a companhia do belo ser. Então, por isso, e para comprar os necessários materiais para a criação de roupas de seda, Tsuki começou a sua jornada até a grande cidade.
O caminho foi difícil. Descer e subir montanhas, vaguear por terrenos virgens, atravessar pontes sempre em cima das chinelas de madeira. Os pés do ex- Samurai já choravam de dor. Esta acalmou quando Tsuki chegou à planície. Sentou-se numa rocha fria e cinzenta e ali ficou.
Os olhos não demoraram a fechar-se. Os sonhos cruzaram-se e Tsuki pode ver no seu belo sonho o magnifico ser lunar. O príncipe da lua e da noite. Enquanto os olhos repousavam, nos lábios da noite como segredos escondidos de um conto, surgiu um barco voador, um belo barco que era manejado com um comprido remo de prata no céu estrelado. Nesse barco dois belos seres miravam o homem. "Como é belo" disse uma voz efeminada, no entanto o ser era como uma flor,com traços de beleza que confundiam os mortais sobre ser um príncipe ou uma princesa. A segunda voz era decerto uma voz masculina. O remador era um guerreiro de armadura de prata, tinha um rosto mais formoso que a água celestial. Os seus olhos eram tão negros que parecia uma poça de céu nocturno. Este falou dizendo "Este é o que tanto apela ao príncipe vosso irmão." O ser andrógeno sorriu. Era o príncipe mais novo, conhecido por brincar com os humanos e caminhar no meio dos demónios da noite como se fosse um deles. Trapaceiro e de um sentido de humor negro. Não era malvado, mas sim um ser que se gostava de divertir sem limites. Coisa que o seu irmão não aprovava.
Enquanto o Tsuki descansava na rocha, o barco sobrevoava-o andando devagar para os seres que dele usufruíam examinarem bem cada traço do ex-samurai. O belo homem abriu os olhos e olhou em volta. Tinha sentido algo, o mesmo sentimento que tinha sentido quando esteve perto do príncipe da lua.Procurou, andou e andou, procurando os belos olhos do ser. Mas nada conseguiu se não perder-se ainda mais. A noite foi feita de lágrimas, e a natureza chorou com este.
Longe, bem longe dali, alto e bem alto da terra, numa localização desconhecida ao Homem, morada dos deuses, na noite eterna, no astro mudo de prata, um palácio erguia-se. Um palácio majestoso de mármore negro que brilhava com o cintilar das estrelas. O telhado era de tons azuis escuros que ao olho humano seria impossível afirmar o seu nome. E nas janelas revestidas a prata, véus de seda turquesa esvoaçavam, com o vento a soprar suavemente. Pareciam cabelos finos de uma virgem nadando num leito, dançando com pétalas de pessegueiros em flor. Cresciam muitos, mas não como nós os vemos nos vastos pomares terrestres. Aqui eles cresciam selvagens, tinham a casca dos troncos negra e grossa, macia como se tivessem sido tratados por um artista. Os ramos eram elegantes e em todos nasciam milhares de flores, e em todos umas dezenas dos macios e vultuosos frutos. Entre os enormes e fortes pessegueiros, lindas flores cresciam, Lotus pálidas de uma beleza inigualável. Riachos e pequenas cascatas com água tão límpida quanto cristal, pontes de diamante em tom de safira como nunca se tinha visto em território terrestre. Este local era o palácio de Tsukiyomi, o deus lunar.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O príncipe diamante - Visitante lunar


A noite caiu enfeitiçada pelo luar da lua cheia. Tsuki tinha acabo de vir da aldeia e trazia com ele o típico manto de seda e a comida que os camponeses sorrindo lhe davam. Subia com algum esforço as íngremes escadas de pedra maio húmida, principalmente em cima das sandálias de madeira com dois suportes como sola. Trazia os sacos às costas, muitos monges lhe tinham perguntado se queria ajuda, mas Tsuki sorriu e respondeu que não seria necessário uma vez que já estava habituado à subida e descida das montanhas com o seu material de desenho para encontrar bons pontos para pincelar nas suas pálidas telas.
Mas hoje era diferente, Tsuki trazia mais duas pedras negras que tinha pedido a um monge para colocar no seu jardim onde iria colocar um belo Buda que tinha esculpido.
O peso quebrava-o, sem piedade deitava-o mais para baixo. Ele sentia as costas estalarem de velhice, e as cicatrizes feitas pelas espadas de outrem já se queixavam de dores.
Sem aguentar o peso do corpo, Tsuki sentou-se num doas degraus, sentia o suor escorrer e as mãos tremerem de cansaço. Tirou o chapéu largo e deitou a cabeça para trás. Fechou os olhos por momentos. Sentia a brisa suave da quente temperatura. O calor de um Maio quente já entrava solene pelas vestes leves e largas do ex-guerreiro. Conseguia ouvir o silêncio das noites mornas. Abriu os olhos devagar e viu o céu negro com pequenas partes azuis escuras, como uma tela, salpicada por pontos cintilantes que brilhavam mais que os olhos e o sorriso de qualquer Deus. E finalmente, maravilhosa, linda, majestosa, pálida, a bela lua! Mãe de Tsukiyomi, senhora dos belos espíritos noctívagos, Deusa dos príncipes lunares. Tsuki conseguiu vislumbrar na lua os desenhos do lendário coelho lunar, o espírito da lua. Voltou-se finalmente a levantar, e seguindo a sua força de vontade, ergueu-se e seguiu viagem pelas escadas.
Só parou quanto chegou perto do belo pessegueiro em flor que em noites de lua cheia, parecia de pétalas de cristal.
Sorriu e deixou as coisas caírem subtilmente no chão. Acalmou-se o coração quando ouviu o suar das águas das cascata em miniatura que tinha feito numa rocha, pequenina e cintilante à luz do luar. Finalmente os seus olhos rolaram para a pequena cascata, queria vê-la mais uma vez, queria apreciar o seu trabalho. Quando olhou, os seus olhos abriram-se tanto que se podia ver a escuridão da pupila.
Em frente à sua casa estava um ser, este movia-se docilmente e com tanta fluidez e suavidade que os seus véus de parta pareciam lençóis de água. Inclinava-se para a cascatazinha, esticando a mão pálida como a lua com os dedos finos, até à água transparente e cristalina. Tinha cabelos  que ondulavam numa água inexistente, tão lisos quanto negros.. Vestia um kinagashi branco que rolava levemente pelo chão. Os olhos cintilavam prateados, e o sorriso era puro e imaculado.
Tsuki agarrou-se às próprias vestes e ficou silencioso a vislumbrar tal ser tão belo. O ar fugiu-lhe quase totalmente, as mãos gelaram. Todo o corpo se contraiu. Era como se o corpo tivesse ficado petrificado por tanta beleza. O ser levou os pálidos lábios à água. O seu sorriso era tão doce e meigo que arrepiava o mais forte homem. Parecia uma corça.
Tsuki acalmou o palpitante coração e caminhou por entre a vegetação tentando aproximar-se da incrível criatura que se movia como uma bela garça branca. Devagarinho a rastejar por entre urzes e canas de bambu, Tsuki encontrou-se muito perto. Então conseguiu analisar melhor o visitante celestial. Era um homem. O rosto por muito que nos olhos se visse retoques de pintura em tons lilás, e que os lábios fossem como um botão de rosa, o corpo firme e direito cheio de elegância, apontavam para a sua masculinidade.
Então o ex-guerreiro manteve-se no mesmo sitio. 
O belo jovem de cabelos longuíssimos negros, sentou-se no chão e com um gesto, puxou um fio de água e este como um jacto de luz, transformou-se  num shamisen de madeira negra com cordas feitas de água que reluziam como o luar de prata. O jovem agarrou no bashi pálido e começou a dedilhar as cordas com breves pausas e suaves deslizes nas três cordas do instrumento. A zona larga do instrumento tinha o desenho de uma lua negra entre duas nuvens em tom argênteo. Tocava com tanta subtileza e calma que a água, o vento e toda a natureza se tinham calado para ouvir a sonoridade divinal.
Aproximando-se mais e mais, Tsuki já quase sentia o aroma de amoreiras do jovem pálido. Nesse exacto momento, a mão do homem tocou um galho que chiou ao partir-se. O ser olhou para trás e saltou de susto erguendo-se nos ares pronto para se retirar flutuando nos seus véus esvoaçantes.O ex-guerreiro avançou e soltou um grito afirmando não querer fazer mal a tal ser.
O jovem parou e virou-se com a mesma suavidade de sempre. Com o olhar carregado de seriedade perguntou se Tsuki era quem tratava daquele belo lugar. Ao que Tsuki respondeu positivamente.O ser esboçou um doce sorriso e descendo ao nível de Tsuki declarou ser um Katsura Otoko, um espírito da lua. Tsuki já tinha ouvido falar destes seres, belos e puros por natureza, príncipes da noite, verdadeiros mistérios  da noite, varões filhos da lua.
Depois de ambos terem bebido chá de jasmim na varanda da casa, finalmente, quando a lua já ia alta, o belo jovem foi-se desvanecendo na escuridão em direcção ao céu. Tinha dito a Tsuki que às vezes de noite fazia uma paragem ali para levar os quantos pêssegos e que pensava que a casa estava abandonada. Também disse que se chamava Yuki, e que servia a Tsukiyomi no outro mundo.
Tsuki não falou quase nada apenas ouviu, não lhe ficava bem encher os ouvidos de um ser tão maravilhoso e divino dos problemas dos mortais. 
Aquela noite tinha sido a primeira de muitas mais. E os mistérios do outro mundo estavam só agora a começar, as visitas dos filhos do outro mundo mal tinham começado. Tsuki pedia agora muitas vezes aos monges para mandarem vir livros da capital sobre deuses e espiritos. Agora o ex-samurai usava os tempos livres para ler sobre estes seres, aprender os seus poderes e as suas fraquezas. Queria saber mais, conhecer para poder compreender. Os seus desenhos agira baseavam-se em seres e criaturas de lendas  e da mitologia. O homem sentia-se crescer, e cada noite se tornava mais radiante e misteriosa.




sexta-feira, 11 de maio de 2012

O príncipe diamante - vida de um ex-guerreiro

Os juncos balançavam suavemente como os cabelos leves de uma dançarina do vento este. A suavidade com que movimentavam de um lado para o outro dava à paisagem um ar esplendidamente imaculado. O verde com tons doirados da erva dançante e o pessegueiro em flor tão velho quanto o tempo, centenário de tronco grosso e quase ébano, emergia de um céu em tons doirados, rosa e púrpura como o quimono de uma maiko.
A casinha nascia de um rochedo em tons cinza com rastos verdes de musgo. a casa tinha um telhado escuro com quatro pontas bicudas onde nos dois bicos da fronte da casa pendiam candeeiros de papel vermelhos com letras doiradas em kanji, num dizia Harmonia, noutro dizia paz. 
A casa era de madeira escura já velha. Tinha portas de correr de papel e estava a uns cinco centímetros do chão suportada por estacas de madeira que suportavam a construção. Toda em volta da casa havia uma varanda una onde estavam alguns objectos doa dia-a-dia. 
Desde uma mesinha de chá rodeada de quatro almofadas, todas vermelhas, nesta mesa estava suportadas quatro chávenas de chá num tom barrento e no meio estava o Bule igualmente de barro. 
Noutra zona da varanda, perto da porta de entrada, estava um vaso com uns bambus lá dentro. Suportando os extremos do telhado, havia altas estacas de madeira, nelas estavam envolvidas belas glicinias roxas que caiam como as lágrimas de uma princesa nas estacas e no telhado.
A casa tinha à sua frente os juncos e o campo aberto com o pessegueiro no meio. No lado esquerdo tinha um belo jardim com pinheiros do oriente e algumas árvores de camélias. No centro do jardim havia um lagozinho com peixinhos doirados que nadavam por baixo dos três ou quatro nenúfares verdes  do tamanho de uma mão aberta com uma Lotus poisada no cimo em tons rosa água com duas folhas ainda mais verdes que os nenúfares. 
Do lado esquerdo da casa, a muralha de rochedos continuava. O maior tinha mais dois metros que a casa e nesse poisava todos os dias garças brancas que lá se enamoravam e descansavam. À frente da casa, um belo horizonte pintava-se aos olhos dos mortais. Um nascer do sol que só podia ser visto do topo do mais alto monte da mais alta montanha. 
O lugar da casinha era uma plataforma no cimo do monte. Essa dava ligação por escadinhas de pedra até às outras plataformas onde estavam os arrozais de tons de platina e esmeralda brilhando com o sol. 
As nuvens pareciam uma cama de seda branca tecida pelos deuses. Deixavam apenas à mostra o topo verde e rugoso das outras montanhas da cordilheira, as irmãs da montanha do pessegueiro. Delas desciam fios luminosos de cascatas de prata, e em cada plataforma dessas montanhas via-se o verde da relva junto com os pinheiros onde poisavam Grous e garças. Em algumas plataformas mais largas via-se construções do homem, desde um templo budista feito de pedra branca com um sino onde de hora a hora o monge batia criando um som que parecia ser o bater de coração do mundo, um suspiro profundo do coração de rubi dos deuses. Esse bater ouvia-se em todas as montanhas, este acordava, avisava, aclamava e adormecia os poucos seres humanos da cordilheira do Sol nascente. Noutra montanha via-se uma plataforma onde estava um pequeno local de paragem e reza onde estava uma imagem de uma deusa protectora, provavelmente Amateratsu. Essa plataforma ia ligar a outra da montanha mais próxima por uma estreita e longa ponte de madeira rija, feita pelos antigos monges.
Na montanha mais baixa mas mais larga, avistava-se uma aldeia em movimento. As cores da rotina diária. os quimonos cheios de floreados das senhoras de mão dada com os filhos. Os homens em conversação com os seus kinagashis negros, cinza, verdes e azuis enquanto bebiam sake, A tecelagem das sedas pelas mulheres. O afiar de uma catana japonesa. Duas catanas de pau a encontrarem-se uma a outra numa luta entre mestre e aprendiz. Dois futuros noivos a deliciarem-se com cerejeiras debaixo da cerejeira em flor de um jardim de uma das trinta e cinco casas da aldeia. E por fim os arrozais em diferentes plataformas com escadas tanto de pedra como de madeira a ligar à aldeia.
E a casa da montanha do pessegueiro mostrava-se a mais alta e a mais só. Lá vivia um samurai de meia-idade com um aspecto robusto e belo. Tinha um olhar de lobo da matilha. sábio e altivo em tons de negro e cinza. Os olhos eram tão profundos que até o monge mais equilibrado se perderia ao ser fitado por eles. O cabelo era longo até ao meio da coluna. Esvoaçava solene com o vento, negro como a lua-nova e sedosos deambulando no transparente ar morno da montanha. 
Tinha no rosto uma vivida vida, uma lenda e provavelmente o esquecimento. quantas batalhas tinha travado e quão errante tinha sido o seu caminho de samurai. depois de vir para a montanha, Tsuki tinha deixado guardado as duas lâminas do seu orgulho. Esquecera-se dessa vida de sangue e guerra. Estavam guardadas nos confins de uma gaveta do armário de ébano, e lá iam ficar se esse fosse o desejo do ex-guerreiro. Os seus ombros eram imponentes e bem desenhados pelo kinagashi negro. O peito era um relevo no meio do amplo e forte tronco. as costas eram uma curva elegante de quem tinha sido um apaixonado antes. as mãos tinham as veias presentes e à vista. Os dedos eram finos e compridos, e a palma da mão eram larga e quadrada, mãos de quem tinha aprendido muito com a vida. Todo o seu corpo provava conhecimento e poder, no entanto, também demonstrava o cansaço da vida. Nas veias das mãos, nas pequenas rugas do sorriso triste, nos olhos inteligentes, na testa pensadora, no pescoço magro e esbelto, e mais secretamente, nas cicatrizes corporais, filhas de vinganças ou de esperanças. Cicatrizes de tristeza, cicatrizes de amor, algumas de protecção, outras de injustiça. Algumas cicatrizes eram de irmãos, outras de amadas. Cada uma delas contava uma história, e cada uma delas tinha um peso em Tsuki.
O peso que cada guerreiro carrega é o das almas das suas vitimas, nisso acreditam os japoneses. E tsuki confiava plenamente nessa teoria. As almas não eram troféu e muito menos motivo para se ganhar dinheiro. Em tempos remotos da vida deste samurai, as vidas valiam pouco, apenas uns quantos dinheiros dados por um senhor para matar o filho de um oponente. 
Quão sujas estavam essas mãos? Quão sedente era a vontade de perdão?
Fora do contexto da nossa história, e mergulhando nas consciências de cada um, será mais fácil perdoar o próximo, ou nó próprios? Tsuki sabia plenamente a resposta a essa pergunta, era por isso que se tinha isolado, era por isso que se mantinha uno consigo, longe do afecto de qualquer humano, longe de sentimentos terrenos e de desejos mais terrenos ainda. Tsuki queria encontrar a paz. e quem o condenava? Um guerreiro tão sanguinário como ele tinha sido, tanto sangue que aguavam as sua mãos nos seus pesadelos de cada noite. Oh! Os pesadelos, esses que amaldiçoam os culpados, e que deles se aproveitam quando estes procuram a paz interior e o perdão das suas vitimas. Tsuki conhecia bem o mundo negro dos pesadelos. Muitas vezes tinha pesadelos e sentia-se acordar, no entanto quando dava por si, apenas tinha cordado para um novo, e assim sucessivamente ate´acordar lavado em suor e em lágrimas salgadas do seu pecado.Sentia-se amaldiçoado, daí querer procurar a paz e harmonia com tanta vontade.
 Desde que tinha encontrado aquele lugar e erguido ali o seu templo de harmonia, cortado madeira, semeado, regado, caçado, só ai Tsuki sentiu o que era a harmonia de uma vida simplesmente feliz, sem sentimentos extremos e sem vontades traiçoeiras. Tsuki sentia-se bem consigo mesmo ao abandonar a sua vida de guerreiro rico e viver sem riqueza e ostentação no topo da montanha do pessegueiro.
Gostava inspirar o nascer de um novo dia, de trabalhar no cuidado da casa e do jardim, de pintar os seus maravilhosos quadros da paisagem, e escrever os seus poemas sobre a natureza e harmonia. 
Este ambiente, e a sua dieta de aves e legumes que ele plantava, tinham-lhe dado uma saúde como nunca antes. O seu corpo mantinha-se forte no entanto agora era mais são, e a mente mais sã. 
De vez em quando fazia a difícil viagem de subir e descer vales até  ao templo do monges, onde orava por algumas horas com autorização dos monges que achavam o seu acto um acto de nobreza, outra vezes guiava-se numa viagem mais longa e ia até à aldeia das cerejeiras onde em troca de favores às pessoas da aldeia elas davam-lhe ou mantos de seda para o tufon, carne seca ou então cerejas que o ex-guerreiro adorava. 
Tsuki passava horas a pensar no porquê da vida e como alcançar a paz, enquanto desenhava belas garças no topo dos pinheiros que estavam no cimo das outras montanhas. Pintava as cerejeiras e os pessegueiros com aquelas flores miudinhas e cor-de-rosa, outra vezes desenhava apenas as ervas com as borboletas a voarem de bobina em bobina. Tinha um traço cheio de leveza e graça. Nele demonstrava tamanha subtileza e pensamento luminoso, tal clareza, que os monges quando o visitavam de tempos em tempos e viam os harmoniosos quadros, diziam ser inspiração de Buda, apenas feito por mãos celestiais.
Tsuki não se considerava nada celestial, nem divino. Apenas acreditava que cada simples coisa da vida deve ser aproveitada, e que são essas simples coisas que provam que estamos vivos, como o olhar do horizonte, o deslizar de um pincel em seda, e tanto mais.
Enquanto procurava a paz nas suas obras, Tsuki ignorava o quanto as pessoas do templo e da cidade o admiravam. Ele olhava-se como sendo apenas um simples homem, mais um que se tentava redimir dos falhanços da vida de mercenário.
Mas Tsuki não era mais um. Ele era um homem de uma nobreza inimaginável, era doce e afectuoso. Metia quanta profundidade e poder em cada palavra que dizia. Poucas vezes falava, mas quando o fazia nunca era em vão.Parecia estar sempre a ponderar e punha tanto espírito nas suas obras que via reflectida nelas a sua remedição.
Assim era a vida modesta e espiritual do samurai da montanha do pessegueiro, assim ele passava os dias ponderando e aprendendo com as pessoas da aldeia, com os monges, as coisas simples da vida. E assim Tsuki ia criando o seu pequeno mundo de harmonia e paz, sem deslizes ou algo que o distancia-se do seu objectivo.

Roda do equilíbrio


O vento sopra solene
E o mundo torna-se claro e transparente
Sigo com o olhar
Sigo com a mente
Cada movimento brando
Dos juncos
Que se dobram elegantes
E levemente

Oiço o grito da humanidade
Tão caótico
Tão disforme e múltiplo
Como uma debandada
Multidão de borboletas agitada
Cores várias
Nesse mundo amplo
Onde se inspira liberdade

As asas da borboleta vaporosa
Exaltam os sapientes seres
Voa borboleta!
Não está na ora de padeceres
Está na ora de te ergueres
E de toda essa humanidade se levantar

O grito que oiço
Não é de dor
Sim um profundo grito de amor
De mãos dadas
As cores da borboleta variadas
Como irmãs
Como a humanidade

Oh! Se fosse-mos como junco
Que com a força do vento
Deliciosamente se deita
Com movimento fluído e lento
Mas quando a tempestade acalma
O junco ergue-se de novo leve
E terminada a azafama
Tudo volta ao que deve
E o junco descança

Oh! Se fosse-mos como o junco
Não haveria tempos de guerra
Armas nas mãos de criança
Seriamos irmãos como as cores
Das sas da borboleta vaporosa
E viveriamos sem rancores
Com irmãos
Senhores da bonança

Mas irmãos, ainda é dia
Ainda há esperança




quarta-feira, 9 de maio de 2012

África, África...






Oh! Sol poente
De ti nasce do negro continente
O beijo perdido
Desse mundo ardente

Oh! Desde as pirâmides de gize
Ao velho império de Mali
Aos fundos do cabo da boa esperança
Ao deserto do Sahara onde amores ardi

Oceano atlantico banhando a ocidente
Tão puro e escuro como vós
Filhos do sol
Angola cheia de cor e sonoridade

Oceano indico que banha a oriente
Moçambique asiático
As vestes das negras de olhos amendoais
Onde nunca me deixarei de perder, jamais!

O mar mediterrâneo que mergulha
árabes e tuaregues
Que entra pelo Delta do Nilo
Sonhos de egípcios e noites crescentes

Coração do mundo
Mãe terra de todo o planeta
África dos negros, África dos nómadas
Desde os desertos de Marrocos
ao tropicalismo da Guiné-Bissau
Desde cabo-verde a Madagáscar
África dos eternos sonhos
Reencarnada mulher negra
Em rainha do Sabá se erga
Em tais caminhos quero caminhar
Cumprir a terra e o mar
para um dia poder dai sair
e ai voltar

Aos vermelhos da tarde,
 aos doirados do astro solar
aos negro dos deuses
Ao verde dos embondeiros
Ao azul das cataratas Victoria
Posso continuar a sonhar
E contar anos e meses
Para ai chegar!







segunda-feira, 16 de abril de 2012

Chuva de penas


Oh! Beijos
Se dos beijos morresse
O rouxinol apaixonado
Choveriam penas
Por todo o recanto
Por todo esse lado

Oh! Amor
Se de amor caíssem
Os anjos alados
Choveriam eternamente
Penas de pecado

Oh! Se amor mata
Oh! Se amor é blasfémia
De uma seita ou crença qualquer
Então matem-me
Pois mais vale a pena morrer
E queimar no inferno
Onde jardins crescem dos lábios
Daqueles que amam
Sem quais queres barreiras

Mas se eu subisse ao inferno
Choveriam penas
Pois nas minhas costas
Asas cresceriam
E eu contigo voaria
Para essas terras
Longinguas
Do Sul do universo eterno!





segunda-feira, 12 de março de 2012

Cântico das fadas



Gosto de pensar
Meu amor
Que se possa imaginar
Ao som das labaredas
A iluminar
E a mente criar

Mil cores de encantar
Liberdade
Dentro desta verdade
Vários mundos
Vários seres a flutuar
Será ilusão?

As fadas de cristal
Esvoaçando no meu coração
Será que irão
Para esse mundo de flores
De Mil e uma cores
Esse mundo onde nascem os sonhos
Onde me perco
Entre faunos e amores

Elfos pálidos
Amores esvoaçantes
Pureza estonteante
Quero esse mundo
Onde os filhos da terra dançam
Onde os deuses da terra cantam
Mil cânticos de fadas

Oh! Esse mundo
Onde encontramos o desconhecido
Onde me entrego ao sonho
Onde vivo a verdade
Onde só isso importa
Vivo dançando descalça
No meio das flores
As árvores cantam
Será ilusão?
Será realidade?




quinta-feira, 8 de março de 2012

Pés na relva


Relva molhada
Fresca, orvalho cintilante
Eu vou vagueando andante
A relva brilha como diamante
A terra clara e amansada

A floresta
Olhar perdido na luz
Luzindo na magia
Que a alma cria
O calor do sol
Abandona a chuva fria

Eu não temo a tarde tardia
Amo a liberdade inocente
Correndo contra vendavais
Rodeada de cearas de trigo
Vem comigo
Meu igual
Meu amor
Meu amigo!

Vamos ser felizes,

Eternamente
Cintilante
Relva fresca
De Diamante...


segunda-feira, 5 de março de 2012

preciso de um pouco de flores...


Jardins tropicais
Setentrionais...
Todos erguidos imaculados
Livres, selvagens e mais...
Nunca me perderia neles
Jamais
Nesse jardins demais

Longinquos
Desiguais...
Esses Jardins irreais
O meu nirvana
Onde me perderia 
Com liberdade sana
Sem loucura ou medos
Nem mentiras nem segredos
Preciso de flores

Quero amores...
Quero a minha paz
E nada mais!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Sonho de criança




Oh! Se me lembro
Como nos nossos rostos
Soprava o vento de Agosto
Como as brisas do Verão
Enchiam de Amor o nosso coração

Duas crianças
Cheias de sonhos e esperanças
Onde corríamos livres
Uma vida cheia de vida e danças
Antes de ires, antes de partires

Sim, éramos tão puros
E as flores?
Ainda florescem aqui nos arredores
Volta a comigo brincar
Vamos os dois sonhar

Esse que partiu
Esse que é de todos e não meu
Aquele ao qual nunca disse Adeus
Esse chamado sonho...


sábado, 11 de fevereiro de 2012

Pureza Imaculada


Como um botão de flore
Jóia do jardim proibido
Ternura de cada sentido
Só tu és verdadeira
Só tu és a derradeira
Virtude das virtudes

Pureza
És da bondade a beleza
Constróis a felicidade na tristeza
És um raio de luz
Este que ateia e reluz
Que aos impuros seduz

Pureza
És da consciência a leveza
Da ignorância a incerteza
Da certeza a ingenuidade
Vives feliz sendo ambígua
Sendo indiferente à universalidade
Elevas o espírito ao auge do poder

Elevas a alma ao auge da humildade
A mente em liberdade
Vivendo eternamente na generosidade
De se ser feliz sem saber
O que dói o que é sofrer


Pureza,
és a inocência
Dos que vivem como se nada nunca acabasse
Um horizonte de um Éden
Onde corres em prados como se a luz nunca terminasse








domingo, 5 de fevereiro de 2012

Éden


Se caminhasse por esses prados
Sem nunca mais perder de vista o horizonte
O sol nascendo
Ao som das aves coloridas e exóticas
De uma tarde quente de Verão
Seria isso liberdade?
Seria isso aquilo que chamam de felicidade?
Eu corro por entre crisântemos
E piso com pés de fada
Cada botão de floresinhas
Que se soltam pela relva fresca
Oh! Que pureza seria
Imaculado dia
Sonhos ou realidade
Beijos de amor
Cheios de verdade
E os amores-perfeitos florescem
E com eles os meus sonhos crescem!

Jardim italiano


  

Amanhecer



As aves cantam empolgadas
Já se ouve gente a mover-se em casa
Já se ouve a vida acordada
E a felicidade chega
Vinda da neblina da noite
Cheia de flores e aromas
O delicioso aroma a comida divinal
Sei que estão a fazê-lo
Sei que cedo irei desfrutar do sol
Mas agora tenho de me levantar
Para poder viver dessas energias
Dessas manhãs que mesmo frias
Tem o sol a raiar
Nas pétalas das margaridas
Das orquídeas
E um novo dia nasce
Cheio de cor e luz
No meu jardim Floresce
E eu sorrio ao mirar a luz
A iluminar a minha varanda
Cheio de calor
Onde só é permitido o doce sentimento
Do Amor!
Jardim grego



sábado, 4 de fevereiro de 2012

Oriental





Num beijo leve de uma borboleta
Numa pétala de rosa branca
Pura e bela, como a pele de um príncipe
Esses sonhos são meus,
Se nos olhos me perdesse
Seria a Maior riqueza
Nesses lábios teus
Meu guerreiro de olhos prateados
Que me afundaste nessas profundezas
Ho! Me afundaste, meu príncipe
Quero que voltes, meu amor
Para me perder em ti,
No teu corpo calor
Tu que autentificas o meu ser
Tornando-o o mais belo
Tu que me dás o doce fruto da eternidade
Dos teus lábios nunca me fizeste sofrer
Sempre amor me apresentaste e despertaste
Vivendo na paixão das montanhas
E na verdade
Nos teus braços sempre fui feliz
Quero voltar a ter os teus braços em volta de mim
Ho vento, traz-me o meu guerreiro de cabelos negros
Traz-me a visão que nunca mais vi
Com lamina na mão lutas e sofres
Quero te acariciar nos meus braços de novo
E afundar-me de novo
Nesses olhos rasgados e finos
Que vêem o mundo na perspectiva do amor
Canto ao ar estes hinos
Para que te tragam de volta meu amante
Meu belo cavaleiro, corre esses montes
E volta para mim finalmente
Estou a desvanecer, e em ti
Está a vida que me falta,
A minha vida está amarga
Nos teus lábios está a doçura
Trá-los de volta para mim
As pétalas de cerejeira levam a mensagem de amor
Escuta-as por favor
Meu doce cavaleiro andante

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Jardim



Quantas foram, quantas não foram, essas flores que conta-mos. Lembras-te do seu cheiro? Como era doce! Nós flutuávamos no aroma da Jasmim, tão doce, no perfume das rosas, tão fatais, no suave cheiro das glicínias, dos Lírios brancos e puros.
Lembraste das cores? O azul mágico das hortênsias, que desbotavam em pontinhos que unidos faziam um mundo de suavidade e beleza, a límpida palidez dos jarros, o exotismo dos aloendros, flores filhas das noites arábicas, que tantas vezes enfeitiçaram os nossos quartos, noites quentes de Verão em que a lua crescente nos beijava com pós de desejo e paixão, as margaridas, tão singelas e pequeninas de todas as cores saltitando nos nossos passos amorosos, essa dança de inocência e imaculabilidade.
A majestade dos cravos, que exaltava a nossa paixão, a sua macieza quando nos deitávamos sobre eles. E a perfeição do nosso amor nos amores-perfeitos que jaziam nessa cama de flores que tanto serviram de leito ao fogo das nossas loucuras da juventude.
Lembras-te? Quando o meu vestido pendia nos meus ombros, independente, alvo, enquanto corríamos pela floresta cheia de Cerejeiras floridas, rosas silvestres a adivinharem namoros, os pessegueiros cujas pétalas dos botões adejavam á nossa passagem. Corríamos os terrenos mandarins, pelos trilhos das rosas da china, pelos campos de crisântemos, corríamos as índias, junto aos lagos de lótus onde os nossos corpos molhados se acostavam um ao outro olhando as estrelas.
E quando pelos prados de camélias, rosadas, níveas, áureas, desvendávamos os caminhos florais para o Japão, na seda do teu toque deleitoso. Os teus olhos negros como duas poças de oceano imenso e profundo, na oscilação do vento os teus cabelos ébano como a noite sem lua prateada, nos quais me perdi.
Exalto as flores do meu jardim, nelas vejo imagens nas quais nunca me perdi, nas quais jamais me esqueci, nos caminhos que nunca caminhei, pois nesses teus olhos negros nunca o meu reflexo se celebrizou, nunca se aclamou, apenas te olho, de longe, esperando um sorriso, e imaginando o jardim que ainda iremos plantar…

By Banp